sábado, 5 de dezembro de 2009

"E A VERSÃO ACREANA, QUANDO SAI?"

As amarguras do jornalista de talento reduzido à condição de escriba são peculiares à imprensa da fase industrial, nada têm de espantoso e não podem ser lançadas, individualmente, às vítimas, mas ao regime que gerava e mantinha esse gênero de corrupção. Vê-lo nos casos pessoais e isolados é deformação ligada ainda ao moralismo inconseqüente e escamoteador da verdade profunda dos fenômenos e processos.

O esforço das campanhas pela "liberdade de imprensa" que, periodicamente, surgem, e não apenas nos jornais e revistas - uma curiosidade: aparecem sempre numerosas organizações e forças estranhas à imprensa nessas campanhas - visa sempre, e tão-somente, a exclusão do poder governamental, a interferência do poder público. O obstáculo à liberdade de imprensa é, nessas campanhas, o Estado, particularmente através da censura. Trata-se, evidentemente, de concepção liberal, peculiar à fase ascensional da burguesia. Em tal fase, as limitações à imprensa só podiam partir dos detentores do poder; o capitalismo de concorrência estava interessado em que a imprensa fosse livre, não se visse limitada pela violência ou pela censura da autoridade pública, mas nisto esgotava o seu conceito de liberdade de imprensa. Tudo mudou, entretanto, com o capitalismo monopolista, com o imperialismo: a luta contra a censura e todas as formas de cerceamento impostas pela autoridade passou a ser aspecto parcial da luta pela liberdade d eimprensa e, algumas vezes, aspecto menor. A transformação da imprensa em negócio de grandes proporções, em empresa, e, paralelamente, o desenvolvimento, complexidade e encarecimento de suas técnicas, demandando grandes investimentos e acompanhando o desenvolvimento qualitativo e quantitativo do público, mostra como a proteção contra a censura perdeu o interesse antigo, embora não tenha este desaparecido; as grandes empresas jornalísticas, no essencial, se autocensuram. Isso conduz à transformação dialética, finalmente: de instrumento de esclarecimento, a imprensa capitalista se transformou em instrumento de alienação, fugindo inteiramente aos seus fins originários.

A liberdade de imprensa, na sociedade capitalista, é condicionada pelo capital, depende do vulto dos recursos de que a empresa dispõe, do grau de sua dependência em relação às agências de publicidade. Isso se tornou claro, no Brasil, desde a segunda metade do século XX. De tal sorte que os assuntos de interesse nacional só encontraram possibilidade de estudo em revistas especializadas, e as correntes de opinião divergentes das forças dominantes tiveram a capacidade reduzida apenas à possibilidade de manter semanários, - o jornal diário já colocado fora de seu alcance.

Os processos pelos quais as grandes empresas jornalísticas conseguiram o patrimônio que ostentam daria uma enciclopédia; o problema começou a tornar-se público com a ofensiva contra Última Hora. Em fevereiro de 1961, o senador Jefferson de Aguiar cometeu a ousadia de requerer informações sobre os devedores do Banco do Brasil de importâncias superiores a 100 milhões de cruzeiros. O Globo combateu violentamente esse sacrilégio: "Não vemos porque a situação econômica e financeira de firmas respeitabilíssimas deva ser levada ao conhecimento público sem a aquiescência dessas firmas". A curiosidade do senador, aduzia, "nada tem de vantajosa para o Banco do Brasil". E rematava: "O Banco é uma sociedade anônima cujo principal acionista é a União, mas esta particularidade não pode levá-lo a práticas contrárias às normas bancárias e comerciais aplicáveis a todos os órgãos creditícios". Em fins de 1961, a revista PN, do Rio, começou a longa campanha a respeito do controle exercido sobre a imprensa pelas agências estrangeiras de publicidade: rasgavam-se as fantasias. O problema específico da imprensa iniciava o seu enquadramento no largo e tenebroso painel da corrupção exercida pelo imperialismo em nosso país. Nas eleições parlamentares, essa corrupção atingira dimensões inauditas.

Os acontecimentos de 1963, com as duas CPIs, a do IBAD e a da imprensa estrangeira, a vigorosa campanha radiofônica do deputado Leonel Brizola a respeito dos empréstimos privilegiados de instituições oficiais de crédito a jornais, particularmente aos Diários Associados e suas emissoras, e a O Globo, o avanço democrático que o país assistia, então, com a parcial derrota na tentativa de empolgar o Congresso, eliminando dele, pela corrupção eleitoral, os representantes nacionalistas, a vitória de muitos candidatos populares, inclusive com a conquista de executivos estaduais, exigiria do imperialismo uma decisão drástica: liquidar o regime brasileiro por um golpe militar, estabelecendo o único regime em que desaparecem as resistências legais aos seus interesses e em que se torna extremamente difícil esclarecer e mobilizar o povo: a ditadura.


Trechos de História da Imprensa no Brasil, de Nelson Werneck Sodré. MAUAD, 1999. Clique aqui para ler mais trechos on-line.

domingo, 22 de novembro de 2009

ESPERTALHÕES DO CLIMA SÃO DESMORALIZADOS

Demorou, mas aconteceu.

A farsa do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em tradução livre), que fazendo-se passar por "instituição científica" defende a qualquer custo a tese de um aquecimento global por causas humanas, acaba de ser desmascarada.

Os autores da façanha são nada mais, nada menos, que hackers (piratas de computador, isto é, gente muito boa em informática).

Os penetras invadiram os computadores da Hadley Climate Research Unit (uma das principais instituições apoiadoras do IPCC na Grã-Bretanha) e disponibilizaram milhares de documentos dessa instituição na rede mundial de computadores.

A papelada revelou milhares de e-mails trocados ao longo de mais de uma década, incluindo um conluio entre vários "cientistas" para esconder a verdadeira situação do clima do planeta - um fenômeno de declínio da temperatura, ao invés de aquecimento - e trocas de idéias quanto a diferentes formas de dividir e embaralhar os dados relacionados ao clima mundial.

É um tremendo golpe na fraude do "aquecimento global" que deverá ter efeitos sobre a próxima reunião do IPCC em Copenhague - e aqui no Acre ajuda a evidenciar, mais uma vez, a papagaiada pseudo-sustentável criada para vender madeira barata para o exterior...

As notícias relacionadas estão no The Wall Street Journal, Examiner e The Air Vent.



Fonte: Resistir.info

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A PROPRIEDADE INVENTADA

O debate acerca da reforma agrária no Brasil vem contribuindo para colocar em evidência uma antiga problemática: a da propriedade da terra. Considerada por uns um direito inviolável do ser humano e, por outros, um patrimônio que deve ser utilizado produtivamente pelas diversas gerações, a idéia da propriedade privada da terra segue sendo interpretada como conquista adquirida, seja ela política ou econômica.

De acordo com a legislação brasileira que versa sobre o tema (a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Terra de 1964 e a Lei n.º 8.629/93), o direito de propriedade da terra é garantido, desde que atenda a sua função social, ou seja, se a sua utilização for condicionada ao bem-estar coletivo. Em caso de descumprimento, cabe ao Estado, baseado no interesse social, a tarefa de desapropriar as formas de ocupação e de exploração da terra que não estejam sendo utilizadas de forma produtiva, valendo-se dos instrumentos de “prévia e justa indenização” do proprietário.

A pergunta fundamental, no entanto, deixa de ser colocada: como é possível que a terra se converta em propriedade privada?


Se, na Idade Média, a legitimação da propriedade da terra por parte dos senhores feudais era buscada na dádiva divina, com o liberalismo a propriedade se converteu em direito humano, uma premissa que passa a ser legitimada racionalmente pela nova classe dominante: a burguesia. Após apropriada, a terra pode ser vendida, comprada e arrendada, assim como qualquer outra mercadoria. Ao ser colocada no mercado, o valor da terra passa a ser determinado pela sua capacidade de gerar renda, ou seja, pela sua utilização como meio de produção que tem dono (uma renda absoluta, portanto) e pelo seu potencial produtivo, sua fertilidade e sua localização (uma renda diferencial).

De acordo com David Ricardo, em seu famoso livro Princípios de economia política, editado em 1848, a renda, que parte da idéia de aluguel da propriedade, entretanto, não constitui um componente do preço dos produtos agrícolas. O que ocorre, segundo ele, é o contrário: a renda é resultante do preço dos produtos agrícolas. Quando cresce a população consumidora, é necessário utilizar também as terras menos férteis, que produzem menos. Neste caso, o preço de um produto agrícola é nivelado pelo custo mais alto para produzi-lo, o que cria uma renda diferencial para os produtores com custo mais baixo: é da menor produtividade da terra e da maior soma de capitais investidos que surge a renda. A idéia de comprar a terra decorre precisamente da possibilidade de deixar de pagar a renda em forma de arrendamento, “alugando-a” em definitivo, ao adquiri-la (o valor pago na venda da terra leva em consideração sua possibilidade de gerar renda).


É claro que depois de comprada, a terra poderá ser novamente vendida ou, então, ser herdada: quem pagou para adquiri-la entende que é, de fato, seu proprietário, e passa a encará-la como capital, o que, no caso de uma desapropriação, origina a necessidade de indenização aos proprietários. E essa é a questão chave para entender a contradição: a terra constitui capital?


O filósofo Rousseau, um dos precursores da Revolução Francesa, foi, certamente, quem mais cedo denunciou as conseqüências da apropriação privada da terra. Ele considera a instituição da propriedade privada da terra como a origem da desigualdade entre os homens, o momento inicial em que as classes dominantes transformaram em lei aquilo que já possuíam na forma de força.


A propriedade privada, portanto, não se origina da natureza, mas se funda em convenções, as quais resultam da ordem social predominante. As circunstâncias que conduziram ao aperfeiçoamento da razão e à ruína da humanidade são, segundo Rousseau, o estabelecimento da propriedade (devido à existência de ricos e pobres), a instituição da magistratura (por haver poderosos e fracos) e a manutenção do poder legítimo em poder arbitrário (que determinaria o último grau de desigualdade, entre patrões e escravos).


Nas palavras de Rousseau, em seu famoso Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens: “o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, quantas guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!” E, com base nesta constatação, Rousseau fundamenta sua crítica à instituição da sociedade civil e das leis: “Tal foi ou deveu ser a origem da sociedade e das leis, que deram novos entraves ao fraco e novas forças ao rico, destruíram irremediavelmente a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade, fizeram de uma usurpação sagaz um direito irrevogável e, para lucro de alguns ambiciosos, daí por diante sujeitaram todo o gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria”.


De fato, se refletimos radicalmente sobre a legitimidade da apropriação privada da terra, verificamos que houve um primeiro ocupante de um território ainda não ocupado por alguém, o qual reivindica para si o direito de usufruir este recurso natural. Como este direito não é reconhecido como legítimo por outros, acontecem as disputas por territórios, uma das razões para as muitas guerras que conhecemos ao longo da história. Além da reivindicação de primeiro ocupante, estaria imbricada nesse argumento a ocupação da terra somente numa porção limitada à necessidade de subsistência dos ocupantes. O terceiro argumento que Rousseau apresenta neste debate é o de que a posse não se dê por legitimação de uma cerimônia, mas pelo trabalho e pela cultura, os quais, segundo ele, são os “únicos sinais de propriedade que devem ser respeitados pelos outros, na ausência de títulos jurídicos”. Possivelmente é nisso que se fundamenta a noção vigente de que terra produtiva não possa ser desapropriada ou que a terra deve ser daquele que nela trabalha.


O dilema dessa argumentação é a convicção de que a propriedade da terra seria resultante do trabalho, assim como se daria a propriedade do capital. O capital é resultado do trabalho humano acumulado (trabalho morto), onde até poderíamos identificar uma relação causal que levaria à legitimidade ou deslegitimidade de sua posse. O problema, no caso da terra, é que se trata de um recurso natural não passível de reprodução, ou seja, ninguém com o seu trabalho é capaz de produzir um hectare de terra. Como a terra em si não é resultante do trabalho humano, ela não se constitui capital na origem e continua sendo um recurso natural disponível de forma limitada, sobre o qual a propriedade não possui legitimidade.


Com a superação do modo de produção feudal, a propriedade da terra representa um empecilho ao desenvolvimento da produção capitalista, uma vez que conserva uma estrutura de remuneração da posse, originando uma reserva de valor gerado socialmente, que aparece convertida na renda paga ao proprietário. Como afirmava Ricardo, “o fenômeno da renda é uma vantagem resultante de uma desigualdade, da desigualdade que decorre do momento em que a propriedade é a causa da renda, porque ela é a consagração jurídica de uma desigualdade econômica”.


Para Lênin, a propriedade privada da terra é um entrave ao progresso da agricultura, e não seria necessária do ponto de vista da acumulação capitalista. A razão de sua manutenção estaria no temor dos capitalistas de que a deslegitimação da propriedade da terra venha a ser estendida a todas as formas de propriedade privada. Além disso, é notável que após o estágio inicial do capitalismo, a própria burguesia se tornou a classe proprietária da terra, um instrumento de poder político importante ao lado da apropriação do capital industrial, comercial e financeiro, o que contribui para o fortalecimento de sua hegemonia.


No caso brasileiro, o atual conflito em torno das ocupações de terra no Brasil, onde os latifundiários passam a organizar milícias armadas em defesa do seu “sagrado” direito de propriedade da terra, já que não confiam no atual governo e no “Estado de direito” instituído para defender seu “direito adquirido”, a deslegitimidade dos proprietários de terra começa a ficar evidente. Diante da determinação do atual governo em cumprir sua tarefa de desapropriar áreas improdutivas, com base no interesse social previsto constitucionalmente, os latifundiários procuram amparo no Poder Judiciário, onde a maioria dos magistrados vêm, historicamente, se posicionando a favor da propriedade da terra, até porque muitos juízes, promotores, desembargadores e advogados, assim como parlamentares, são, eles mesmos, grandes proprietários de terras.


A função da ideologia (neste aspecto compreendida como visão ilusória da realidade, que serve de instrumento de dominação de classe) como se sabe, não serve somente no embate com a classe em oposição, mas também para justificar a própria ação como classe, para si mesmo. Em função de interesses particulares, os magistrados procuram interferir em processos de desapropriação de áreas comprovadamente improdutivas, criando empecilhos legais dos mais diversos, como ficou público no caso de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, em que inclusive laços de parentesco envolvendo uma magistrada com o latifundiário, levaram à suspensão da ação legal conduzida por parte do governo federal.


Quando não recebem um aval positivo do Poder Judiciário, tentam influenciar a opinião pública através dos seus porta-vozes nos grandes meios de comunicação social, que seguem na tentativa de justificar um direito que, na realidade, carece de legitimidade desde o seu princípio. E, ao organizarem milícias armadas como o PRC – Primeiro Comando Ruralista –, os proprietários de terra admitem a deslegitimação de sua causa, retrocedendo ao uso da força para proteger um direito quando este não pode ser assegurado por lei.


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A IGUALDADE DA INDIFERENÇA

"O contrário de diferença não é igualdade. O contrário de diferença é indiferença. É somente numa sociedade de iguais que as diferenças podem surgir, livres e intercambiáveis. Numa sociedade de desiguais como a nossa, a regra, a medida, é a indiferença".

José Paulo Netto, no video-curso "O método em Marx". Para baixar, clique aqui.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

EVANGÉLICOS OU HOMOSSEXUAIS

Há dois grandes equívocos no debate recente sobre o projeto de lei federal que pretende criminalizar a homofobia e a sua recepção entre os cristãos, especialmente pastores evangélicos. Equívocos que foram mantidos no debate estadual, mais recente, proporcionado pelo projeto de lei do deputado Moisés Diniz (PCdoB).

O primeiro equívoco está na posição adotada pelos homossexuais ao restringir, para o âmbito da psicopatia, e portanto para o campo da individualidade, uma tradição social contrária à homossexualidade. É um erro crasso, mas perfeitamente compatível com o galopante processo de individualização da vida política em curso nas sociedades capitalistas.


O preconceito anti-homossexual, se tem origem social, não pode ser combatido no âmbito da psicopatia. Aliás, esta foi a grande descoberta dos movimentos de luta sociais ao longo do século XX.

Cito como exemplos duas lutas que tiveram grandes êxitos, embora ainda estejam em curso: a luta pela emancipação da mulher e a luta pelos direitos raciais, principalmente entre os negros norte-americanos.


Ambos os movimentos tiveram forte rejeição no meio religioso: a luta feminista, por clara incompatibilidade com a origem patriarcal do cristianismo, e a luta dos negros devido à concepção de que a cor da pele derivava-se (alguém ainda lembra disso?) do sinal de Caim.


Depois descobriu-se que as mulheres poderiam dar líderes religiosos tão bons e até melhores que os homens. Descobriu-se também que a cor negra, além de ser majoritária em todas as épocas da Humanidade - hoje também -, deve-se a uma maior quantidade de pigmentos para proteger a pele em determinados climas tropicais.


Debate vai, debate vem, não é que a sociedade resolveu ser menos intolerante?


Nos dois casos o segredo do sucesso foi o mesmo: a correta compreensão de que o preconceito tem origem social e não individual. Que é um fenômeno de macropolítica, e não da idiossincrática preferência individual. Que é algo para ser discutido no campo da processualidade histórica, não do desvio psicossomático.


Ao estabelecer como portador de homofobia, uma doença psíquica, o indivíduo que por uma razão religiosa acredita que homossexuais não vão para o céu, o movimento homossexual fecha as portas do contra-argumento, rotula o indivíduo, superficializa o debate e inicia, no processo, exatamente aquilo que denuncia: a discriminação.


Mas há um segundo equívoco no debate. Este diz respeito aos evangélicos, cuja origem e tradição patriarcal da sua religião exclui totalmente a possibilidade de existir, como fiel, um homossexual. Aliás, é preciso que isso fique claro: a organização sociopolítica do povo judeu, com família nuclear e forte herança patriarcal, impede - e aliás, condena literalmente - a homossexualidade.


Até aí a questão é compreensível, desde que tomada antropologicamente. O problema é quando esta autodefinição identitária, específica do povo judeu e assimilada, por tabela, pelas religiões cristãs, é estendida ao amplo campo da vida política.


Como a política é, por definição, o exercício da vida social em que os cidadãos decidem normas e valores para a convivência comum, o pressuposto básico é que nenhuma noção particular, seja crença ou valor pessoal, pode ter valor ou poder de coerção sobre os demais cidadãos. Esta forma de fazer política já era a regra na Grécia antiga, apesar do absurdo da escravidão (os escravos não eram considerados cidadãos).


Hoje o problema é que, ao estabelecer como "pecado" um determinado comportamento sexual, o cristão não restringe o erro à circunscrição da sua religião, apenas. O pecado, para o cristão, existe mesmo se cometido por pessoas que não compartilham daquele princípio religioso, o que claramente afronta o princípio básico de qualquer democracia: a liberdade.


Ocorre que faz parte da própria arquitetura do cristianismo aquela noção segundo a qual o seu sistema de crenças tem aplicabilidade universal e não apenas religiosa ou litúrgica. Esta foi, não por acaso, a maior fonte de polêmica e de embates históricos do cristianismo com a democracia: a concepção de que uma forma religiosa tem preferência ou maior valor que as demais formas religiosas, não-religiosas ou mesmo irreligiosas, é fundamentalmente antidemocrática e pior que isso: possui um profundo e incontestável potencial ditatorial.


É ditadura aquela concepção política que se estabelece como válida para todas as demais, pelo seu simples mérito ou auto-contemplação.


Se os evangélicos, ou os pastores evangélicos, querem mesmo levar esta discussão a cabo, devem antes submeter a sua concepção religiosa à vida política: homossexualidade pode ser considerada pecado, sim, desde que no âmbito da doutrina cristã e por parte de cristãos. Uma doutrina não pode, exatamente pelos princípios da liberdade e da tolerância que os próprios pastores esgrimam, estabelecer-se como um valor político a ser seguido por todos.


Portanto, assim como nenhum homossexual não pode estabelecer que todo evangélico contrário à causa homossexual é portador de homofobia, nenhum evangélico tem o direito de acusar homossexuais não-cristãos de cometerem crime contra a divindade.
Não numa democracia.


A foto é do
portal evangélico Padom. Segundo o expediente do referido sítio, a palavra significa "liberdade e redenção".

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ECONOMIA POLÍTICA


É óbvio que ninguém pode negar a enorme contribuição do Partido dos Trabalhadores para a vida política acreana. Houve uma transformação radical da Realpolitik nesse Estado logo a partir do primeiro mandato de Jorge Viana e o resultado dessa transformação poder ser visto praticamente em cada esquina da cidade.

É igualmente óbvio, porém, que ao transformar a Realpolitik acreana o governo petista transformou-se com ela. De defensor da democracia social e econômica, o PT tornou-se um árduo e muitas vezes cruel protetor das suas próprias conquistas políticas. É claro que nenhum partido tem a intenção de cometer suicídio político, estabelecendo prazo de validade para as suas bandeiras e idéias: é característico de um partido político colocar-se como a melhor opção no jogo democrático.

O problema é o que se faz ao longo desse processo. Na imprensa acreana, são numerosas as acusações de silenciamento, ocultamento, manipulação e até negação descarada de notícias cujas evidências deixam a quisila no nível do ridículo. Membros do PT, políticos do primeiro escalão, ainda ligam para as redações e pedem "carinhosamente" para que determinada notícia seja publicada com ênfase ou omitida, dependendo dos interesses em jogo.

Essa prática mancha a imagem que o PT, e suspeito que a própria Frente Popular do Acre (FPA) vem se esforçando para construir em um Estado historicamente dominado por forças de direita. É uma prática nefasta que não pode ser tolerada sob quaisquer condições, mesmo que o interesse seja salvaguardar a imagem de um político ou partido qualquer.

Não se pode tolerar que em nome da transformação social cometam-se atentados à liberdade de expressão, até porque este bem ainda não foi alcançado na vida política do Acre. A população, a grande parte da população, os trabalhadores e marginalizados que lotam os matagais mal-iluminados que muitos chamam de "periferia" estão completamente ausentes dessa discussão: expressão pública é sempre expressão dos outros, não a expressão delas. São párias numa sociedade que se diz democrática.

Por esta e outras razões, uma revolução na comunicação social só pode vir quando esses dois pontos, gravíssimos, forem corretamente saneados. Nos dois casos o problema é um só: liberdade. Não há liberdade porque o poder é concentrado em um grupo político que estabelece a um só tempo os limites e os direitos do restante da sociedade.

Somente em uma sociedade democrática, onde o poder político e o poder de imprensa possa ser exercido por toda a sociedade, pode resolver adequadamente esse divórcio de interesses. Democratizado, o poder pertencerá a todos, e não mais somente a alguns. A expressão individual será o direito ao exercício do poder político livre, e o exercício do poder político livre só pode ser realmente livre quando dispuser do direito de livre expressão.


O quadro é de Eugène Delacroix. "A Liberdade guiando o povo", 1830.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A NOVA IMPRENSA ACREANA

O presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Acre (Sinjac), Marcos Vicentti, anunciou hoje em entrevista ao programa Boa Tarde Rio Branco a realização de um evento público para discutir um "novo jornalismo"; algo capaz, segundo ele, de adequar-se "ao novo momento que o Acre vive atualmente".

Taí uma coisa que não pretendo perder (como diz a Beth Passos, "nem sob tortura!"). Entre outras questões, quero saber o que é esse "novo momento" e quais as suas implicações REAIS para a vida das pessoas: sem desconsiderar a beleza dos nossos novos, verdes e belos monumentos e praças, a miséria, o desemprego e a violência não só se mantém nos mesmos espaços da cidade como também dispararam em intensidade!

Que novo momento é esse que não tem implicações práticas na vida da maioria das pessoas?

Obviamente isso tem a ver com o tipo do jornalismo que se pratica hoje, não só no Acre como no resto do país: diferentemente da velha concepção positivista, a História não é escrita por "grandes homens" e suas "grandes realizações". A História é escrita por processos sociais, sendo tais processos ao mesmo tempo manifestos e ocultados ao longo da sua realização.

Não é por acaso, por exemplo, que o PROCESSO do desgaste da política tradicional acreana tenha produzido as novas lideranças políticas que governam no Acre atualmente, assim como não é coincidência que essas lideranças lutem para ocultar o seu próprio desgaste ao colocar-se, na própria imprensa, como a quintessência final, a realização da História da política acreana - e nesse processo costumam inclusive negar fatos históricos concretos, como rebeliões de presidiários, corrupção, violência urbana, negociatas com os barões da nossa mídia etc.

Curiosamente o mesmo processo é seguido por muitos críticos (ou supostos críticos) desta trajetória. Altino Machado e Toinho Alves, só para citar dois intelectuais orgânicos dessa nova fase histórica, fazem crítica ao poder no exato tom que os atuais donos desse poder usam para criticar os donos - antigos - do mesmo poder.

Altino e Toinho - e há outros - não se colocam como atores de um processo social, não reconhecem que a crise do jornalismo sintomatiza uma crise de um sistema inteiro.

A crise da nossa imprensa é mero sintoma da crise de comunicação social.

A crise não é de informação, de notícia. A crise é de expressão, da - falta de - debate, da percepção muito clara da população de que este tipo de jornalismo atual só transmite um único tipo de visão da sociedade: a visão dos proprietários, dos salvadores de coisa alguma, dos coronéis de barranco high-tech ávidos pelo tilintar do erário público em seus bolsos sem fundos...

A origem da crise é até meio óbvia: não pode haver comunicação social se os meios de produzi-la são restritos a meia dúzia de comerciantes da informação.

A solução para as crises, a da imprensa e a da comunicação, não é outra senão a democratização dos meios de comunicação. É o controle social das empresas que produzem a ação comunicacional, e com elas o próprio ato de comunicar.

Absurdo? Absurdo é alguém desconhecer hoje em dia a origem suja das pomposas empresas de comunicação que atuam no Acre hoje, todas erguidas sobre camadas de dinheiro público, e portanto social.

Portanto, a César o que é de César, a Deus o que é de Deus, e ao povo o que é do povo!


A foto, que mostra o meu irmão Marcos Vicentti, é do jornal Página 20.